Por Odailson Fonseca
Uma reflexão sobre a autoestima do jovem de hoje.
Uma reflexão sobre a auto-estima do jovem de hoje.
Somos todos escravos do nosso maior inimigo. As mulheres um pouco mais (perdoem-me!). Ele fica lá, às vezes escondido, mas sempre caçoando de nós. É um zombador incontrolável da nossa cara de palhaço. (Sem ofensas, você entenderá…) Ele não fala, nem age, apenas escancara suas gargalhadas sinistras com a nossa história acelerando rápida. Evitamos sempre que podemos. Gostaríamos de fugir dele como um gato foge da água, mas não podemos viver sem ele – nosso rival dos futuros inglórios. E ele sempre ganha, infelizmente. Até o próximo escravo chegar perto, com seu nariz de bola vermelha, e sair zombado também.
Quem é este vilão do mundo das trevas, apesar de só funcionar com a luz?
Apresento-lhe o algoz dos grandes pesadelos de sonhadores acordados.
O espelho.
Quem nunca saiu da sua frente pior do que entrou? As mulheres idealizam “coroas de miss”, mas ele desveste as miragens na triste realidade: com o tempo passando, você perde o “miss” e fica só com o “coroa”. É a idade chegando.
Meu irmão é um médico-cirurgião muito inteligente. Como você vê, ele me puxou nas boas qualidades (apesar de ter nascido 2 anos… antes!). Já passou mais de uma década em corredores esterelizados e centros cirúrgicos estressantes. Certa vez me confessou: “Se as pessoas fossem mais felizes consigo mesmas, teríamos muitos médicos desempregados por aí”. E é verdade. Não poucas vezes, o bisturi à laser é a conseqüência a médio-prazo de doenças psicossomáticas fervendo em fogo brando no coração por décadas. Já viu um vulcão? A catástrofe explodindo nada mais é do que a culminância descontrolada da lava viva sob uma crosta de pedra. Como muitos de nós, que desfilamos com sorrisos envernizados trancando a sete chaves um sentimento doído de uma beleza que se foi – ou nunca veio.
Ninguém gosta de se sentir feio. Pior ainda quando os outros também notam isso.
E o espelho continua lá: mostrando cabelos brancos com inúmeras histórias para contar; revelando rugas que emolduram olhares de princesas sem reino; motivando cortar, enxertar e agulhar traços físicos das faces frustradas; obrigando pessoas comuns fazerem caretas circenses para não se verem feias do jeito que são (confesso que eu faço isso sempre que fico sozinho com ele!). Ah, se pudéssemos sobrepor àquela imagem no vidro a beleza ideal dos artistas de capa por aí! “Eu seria feliz e invencível”, desculpam-se os proprietários cativos das contracapas dos catálogos dos feios.
Sabia que existe um mercado indestrutível em nosso mundo consumista? Se você respondeu “remédios”, errou! “Transportes”? Mirou longe. “Setor imobiliário norte-americano”? Não brinca comigo… Nada disso! Para este maravilhoso nicho empresarial, a preocupação com as ações na bolsa é só pra conferir se ela, de couro, combina ou não com as cores do batom e sombra dos olhos. Já descobriu? Ainda não?
Estou falando do lucrativo setor dos cosméticos. Nada por aí – quando digo nada é nada mesmo! – vende tanto quanto qualquer coisa que prometa deixar alguém mais bonito, concorda comigo? Estes dias, numa loja de grife, em um aeroporto internacional, vi na vitrine um creme que custava quatro mil euros. (A vendedora tentava me convencer do preço por se tratarem de lascas de ouro mergulhadas em ovas espremidas de caviar belga. Quase comprei!)
Lembro-me das primeiras aulas de Criação Publicitária que tive na universidade, lá em Curitiba. Meu professor foi profético: “quando quiser vender qualquer coisa para alguém prometa uma sensação de beleza e bem-estar”. Ele estava certo. Ou você já viu por aí, comercial de pneus com garotas-propaganda exibindo alguns na sua cintura? Hoje em dia, até pra vender cimento, caixa de fósforos ou coleira de cachorro tem gente bonita com seus sorrisos incandescentes. (Ok, existe uma única exceção na publicidade brasileira, a palha de aço. Eu sei que você compra Bombril mais por misericórdia da propaganda do que por admiração do seu personagem principal. Aquele mesmo tão magro e sorridente que mais parece um varal vazio com dentes brancos pendurados.) Mas, eu garanto, todo o resto do marketing de produtos se alicerça na premissa básica de que “todo mundo quer ser mais bonito do que é”. E lá se vão os suados reais.
As coisas ficaram assim desde o Jardim do Éden. A partir de lá, não admitimos a expulsão da passarela celestial e ficamos conferindo, incansáveis, se estamos mais iguais aos nossos primeiros pais-modelos: Adão e Eva. Eles eram lindos, à imagem de Deus e esculpidos por Ele com barro e costelas. “Nós também merecemos isto”, reivindicamos. Para tanto, construímos muros de espelhos em volta de nós – para checar a todo instante a satisfação da faminta vaidade que nos domina.
Imagine um elevador-cubículo que, minúsculo, não permite nem que você abra os braços. Mas, revista-o completamente de espelhos de reflexos perfeitos: nos lados, acima, embaixo e nas portas. O que acontece? Além da tontura asfixiante, você vê imagens que se perdem no infinito. O espaço parece uma galáxia e, o melhor de tudo, só mostrando você mesmo. Empurramos nosso cotidiano olhando cara-cara para nossos reflexos. Construímos elevadores espelhados buscando subir na vida sempre melhorando aquilo que vemos (e quem não foi a criança que ficava tentando virar rápido entre dois espelhos para ver se conseguia se ver por trás ?!).
Lembra de Saul? Os estudiosos dizem que ele era “tão belo que entre os filhos de Israel não havia outro mais belo do que ele”. Isso significa que ele era o tipo de homem que quando andava no centro de Jerusalém fazia a mulherada flutuar. Pense nas pretendentes mordendo os lábios enquanto ele passava… Seu porte fotográfico extraía suspiros femininos nada discretos, e obrigava os rivais correrem para seus elevadores checarem no reflexo o que lhes faltava. Este era Saul. “Desde os ombros para cima sobressaía a todo o povo” (1 Sm 9:2). Beleza assim ganhou o concurso – Saul virou rei.

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